36 - Quão lenta parece a passagem do tempo no Purgatório?
O que mostra ainda mais o rigor do Purgatório, é que o período mais curto de tempo lá parece ser de muito longa duração.
Todo mundo sabe que os dias de alegria passam rápido e parecem curtos, enquanto que o tempo passado em sofrimentos parece-nos muito longo. Ó, quão vagarosamente passam as horas da noite para o pobre doente, que sofre sem conseguir dormir! Podemos afirmar que, quanto mais intensa é a dor, tanto mais longa parece a menor duração de tempo.
Essa regra nos fornece um novo meio de estimar os sofrimentos do Purgatório.
37 - Poderia dar um exemplo da passagem do tempo no Purgatório?
Encontramos nos Anais dos Frades Menores, no ano de 1285, um fato que é também relatado por Santo Antonino em sua Summa.
Um homem muito religioso, que sofria já havia longo tempo de dolorosa doença, deixou-se levar pelo desencorajamento, e suplicou a Deus que lhe permitisse morrer para se ver livre dos sofrimentos.
Ele não pensou que o prolongamento de sua doença era uma misericórdia de Deus, que queria poupar-lhe mais severos sofrimentos na outra vida.
Em resposta às suas preces, Deus encarregou seu Anjo da Guarda de oferecer-lhe a escolha entre morrer imediatamente e sofrer as dores do Purgatório por três dias, ou suportar sua doença por mais um ano, e então ir direto para o Céu. O doente não hesitou em escolher os três dias de Purgatório. E assim morreu, indo para o lugar de tormentos. Uma hora depois de lá ter chegado, seu Anjo foi visitá-lo em seus sofrimentos. Ao vê-lo, o pobre condenado queixou-se por ter sido deixado tão longamente no Purgatório.
“E ademais – acrescentou - vós me prometestes que eu permaneceria apenas três dias aqui”.
Seu Anjo lhe perguntou: “Quanto tempo pensas que já sofreu?” “Pelo menos vários anos. No entanto, eu deveria sofrer apenas três dias”.
“Saiba que estás aqui somente há uma hora – disse-lhe o Anjo - A intensidade das dores o engana quanto ao tempo. Faz um instante parecer um dia, e uma hora parecer anos”.
Ai de mim! - suspirou a pobre alma - como fui tão cego e inconsiderado na escolha que fiz. Rogue ao Senhor, meu bom Anjo, que me perdoe e me permita retornar à terra. Estou pronto a submeter-me às mais cruéis moléstias, não apenas por um ou dois anos, mas tão longamente quanto lhe aprouver. É melhor seis anos de horrível sofrimento na terra do que uma só hora neste abismo de inexprimíveis agonias”.
38 - Isso significa que um minuto de sofrimento no Purgatório parece um ano ou mais de sofrimento na terra?
O fato seguinte, tirado de um piedoso autor citado pelo Pe. Rossignoli, mostra isso.
Dois religiosos de eminente virtude rivalizavam um com o outro em levar uma santa vida. Um deles caiu doente e soube por uma visão que morreria logo, que seria salvo, e que permaneceria no Purgatório somente até que a primeira Missa fosse celebrada pelo repouso de sua alma. Cheio de alegria ante essa notícia, apressou-se em partilhá-la com seu amigo e rogar-lhe que não demorasse na celebração desta Missa que lhe abriria o Céu.
Ele faleceu realmente na manhã seguinte, e seu santo companheiro não perdeu tempo em celebrar o Santo Sacrifício prometido.
Depois da Missa, enquanto fazia a ação de graças e continuava ainda a rezar pelo falecido amigo, este lhe apareceu radiante de glória, mas, num tom docemente queixoso, perguntou por que essa Missa, da qual ele tanto necessitava, tinha sido tanto adiada.
“Meu irmão bendito – respondeu o religioso - dizeis que eu adiei muito? Não vos entendo”.
O quê! Não me deixastes sofrer por mais de um ano antes de oferecer a Missa pelo repouso de minha alma?
“Realmente, meu caro irmão, eu comecei a Missa imediatamente após vossa morte; não haviam passado nem quinze minutos”.
Então, olhando-o com emoção, a bendita alma exclamou: Quão terríveis são os sofrimentos expiatórios do outro mundo, uma vez que eles me fizeram tomar minutos por um ano.
Servi a Deus, meu caro irmão, com uma exata fidelidade, para que possais evitar esses castigos. Adeus! E voo para o Céu, onde logo juntar-vos-eis a mim”.
- Catecismo sobre o Purgatório (pág. 24-25)