De acordo com o Rafael Vitola Brodbeck em seu livro Manual da Santa Missa (p.26-27):
Todo sacrifício, seja ele legítimo — isto é, ordenado ao verdadeiro Deus: o da Antiga Aliança e o da Nova, inaugurada por Cristo e perpetuada na Missa — ou não — oferecido a falsas divindades —, tem quatro finalidades básicas.A primeira delas é a adoração. Num sacrifício, adoramos a Deus, reconhecendo-o como Senhor de tudo e Rei de nossas almas. Submissos que somos a Ele, reconhecemos sua soberania sobre nós, oferecendo algo, como que o presenteando. Na Cruz, Cristo foi a oferta dada a Deus. A Morte de Cristo, de um modo sobrenatural e misterioso, agradou a Deus, seu Pai, e foi como que um presente a Ele — notemos que Deus não é um carrasco, mas Seu agrado pelo sacrifício de Seu Filho deve-se a que, por ele, o plano original é restaurado, e também porque a obediência de Cristo tornou possível que todos nós o obedeçamos. Na Missa, por sua vez, eis que é o mesmo sacrifício tornado presente, Cristo é ofertado ao Pai. Em nosso rito romano, podemos entender perfeitamente essa entrega de adoração, nas palavras do sacerdote: “Por Cristo, com Cristo, e em Cristo, a vós, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre”. É por essa razão que somente o celebrante, o sacerdote, pode recitar essas palavras, a que os fiéis respondem com um solene “amém”. Se o sacerdote o é pela íntima vinculação com o único, eterno e supremo sacerdócio de Jesus Cristo, através do sacramento da Ordem, somente ele pode agir in persona Christi, adorando a Deus da mesma forma com que Nosso Senhor o adorou por sua Morte. O padre, digamos assim, embora não seja teologicamente preciso, “faz as vezes de Cristo”.O segundo fim que se quer em um sacrifício é a ação de graças a Deus por todas as graças e bênçãos recebidas. A entrega de Jesus foi, também, um agradecimento ao Pai, e isso é renovado na Santa Missa. Tanto esse caráter é essencial no sacrifício, sobretudo no verdadeiro e único Sacrifício da Cruz e do altar, que a expressão “ação de graças” se diz, em grego, eukaristhia.Também o sacrifício deve ser impetratório, de súplica a Nosso Senhor por favores divinos, novas graças e bênçãos. Morrendo na Cruz, Jesus pediu ao Pai uma graça específica em favor daqueles que o estavam matando: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23, 34). A Missa, por ser o Sacrifício de Cristo tornado presente, é a ocasião propícia para fazermos violência ao céu e clamarmos para que Deus nos seja solícito em atender nossas preces.Por fim, o sacrifício tem um caráter propiciatório. No Antigo Testamento, se ofereciam cordeiros pelos pecados do povo. Na Nova Aliança, fundada por Cristo em sua Santa Igreja Católica, Ele próprio foi oferecido, tal qual o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Esta aliança é definitiva, e ela é que nos rege, de modo que na Santa Missa, sua perpetuação, até que Nosso Senhor retorne, Cristo se oferece, não novamente, pois se trata do mesmo e único sacrifício, mas de uma nova maneira, incruenta, e sob a aparência de pão e vinho — na verdade, seu corpo e sangue verdadeiros. A propiciação na Missa revela-nos que é a ira de Deus sobre nós, injustos, maus e pecadores, que é aplacada, dando-nos a misericórdia do Senhor que enviou Seu Filho para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16), e a consequente remissão dos pecados.A natureza sacrifical da Missa, que o Concílio de Trento solenemente afirmou, concordância com a universal tradição da Igreja, foi de novo proclamada pelo Concílio Vaticano II, que proferiu sobre a Missa estas significativas palavras: “O nosso Salvador, na Última Ceia, instituiu o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue para perpetuar o Sacrifício da Cruz através dos séculos até a sua volta, e para confiar à Igreja, sua Esposa muito amada, o memorial de sua Morte e Ressurreição”. O que o concílio ensinou com estas palavras encontra-se expresso nas fórmulas da Missa. Com efeito, a doutrina já expressa concisamente nesta frase do antigo Sacramentário, conhecido como Leoniano: “Todas as vezes que se celebra a memória deste sacrifício, renova-se a obra da nossa redenção”, é desenvolvida clara e cuidadosamente nas orações eucarísticas; nestas preces, ao fazer a anamnese, dirigindo-se a Deus em nome de todo o povo, dá-lhe graças e oferece o sacrifício vivo e santo, ou seja, a oblação da Igreja e a vítima por cuja imolação Deus quis ser aplacado, e ora também para que o corpo e sangue de Cristo seja um sacrifício agradável ao Pai e salutar para o mundo. Assim, no novo missal, a regra da oração da Igreja corresponde à regra perene da fé, que nos ensina a identidade, exceto quanto ao modo de oferecer, entre o Sacrifício da Cruz e sua renovação sacramental na Missa, que o Cristo Senhor instituiu na Última Ceia e mandou os apóstolos fazerem em sua memória. Por conseguinte, a Missa é simultaneamente sacrifício de louvor, de ação de graças, de propiciação e de satisfação.

