Se, portanto, se quiser ter um vestuário que seja correto, deve-se seguir o costume do lugar e vestir mais ou menos como as pessoas de sua condição e de sua idade. Contudo, é importante tomar cuidado para que não haja nem luxo nem qualquer coisa supérflua no vestuário, e se deve evitar tudo o quanto fosse pomposo e ressinta mundanismo.
O que pode dar a melhor regra para se vestir corretamente é a moda; é indispensável segui-la, pois a inteligência humana está muito sujeita à mudança; e o que lhe agradava ontem, não lhe agrada mais hoje. Por isso inventaram-se e ainda se inventam todos os dias diferentes maneiras de se vestir para satisfazer esse espírito de mudança; e quem quisesse vestir-se como a gente se vestia há trinta anos, passaria por ridículo e por esquisito. Entretanto a conduta de um homem honesto é nunca se distinguir em nada.
Moda é o nome que se dá à maneira na qual se fabrica o vestuário no tempo presente. É preciso conformar-se a ela tanto para o chapéu e ao tecido, como para as peças de roupa. Seria contra a boa educação que um homem usasse um chapéu de copa alta ou aba larga, quando toda a gente usa chapéu baixo e aba curta.
Contudo não se deve entrar em primeiro lugar nas modas; há algumas que são caprichosas e extravagantes, como há outras que são razoáveis e honestas. Assim como não se deve fazer oposição a estas, não se deve seguir indiscretamente as outras que ordinariamente somente são seguidas por um pequeno número de pessoas e não são de longa duração.
A regra mais segura e razoável tocante à moda é não ser o inventor dela, os primeiros a usá-la, e não aguardar que não haja mais ninguém que a segue, para abandoná-la.
Para os eclesiásticos, sua moda deve ter um exterior e roupa de acordo com os eclesiásticos mais piedosos e regulares em sua conduta, seguindo nisso o conselho que São Paulo dá, que é: não se conformar com o mundo.
Vale destacar que o santo escrevera isso na França do século XVII, época em que os costumes ainda não se tinham degenerado e a moda dizia respeito a uma mera variação dos mesmos costumes e não a uma indústria e instrumento de engenharia social. Contudo, alguns princípios - como o de se evitar arqueologismos extravagantes e demasiada distinção - permanecem atuais.

